CIRO, BUSCA SE ENCONTRAR COM LULA.

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O senador Ciro Nogueira (PP-PI) vive hoje o momento mais delicado de sua trajetória política. Depois de passar anos atacando Lula, trabalhando contra sua eleição/reeleição e ajudando a construir a narrativa de que o petista estaria politicamente acabado, o senador agora tenta, a qualquer custo, uma aproximação com o presidente da República. Não se trata de diálogo institucional nem de preocupação com os interesses do país. Trata-se de sobrevivência política.

Foto: Reprodução

A tentativa de encontro com Lula surge quando Ciro percebe que não há mais retorno no tabuleiro nacional. O projeto bolsonarista ruiu, Jair Bolsonaro não é candidato, e a família Bolsonaro — que Ciro tentou afastar da formação da chapa presidencial — assumiu protagonismo com Flávio Bolsonaro bem posicionado no campo da direita, com bons números nas pesquisas. O espaço que ele imaginava ocupar, como articulador do Centrão e vice em uma chapa nacional alternativa com Tarcísio, simplesmente desapareceu.

Sem saída em Brasília, Ciro volta os olhos para o Piauí. A reeleição ao Senado passa a ser a hipótese principal, com uma alternativa ainda mais modesta: disputar uma vaga de deputado federal. O problema é que, ao aterrissar no cenário local, ele encontra um ambiente muito mais hostil, afinal no Estado mais petista, ele é considerado inimigo número um do presidente.  A foto recente de Júlio César com Lula, em Brasília, com direito a gesto público de apoio à sua pré-candidatura ao Senado, agravou ainda mais esse quadro e deixou Ciro politicamente encurralado.

Foto: Reprodução
Lula e Júlio Cesár
Lula e Júlio César

Durante três anos, Ciro construiu uma narrativa frontalmente contrária a Lula. Disse que o presidente seria humilhado eleitoralmente e que representava um projeto ultrapassado. Mais do que divergência política, foi uma postura de enfrentamento permanente — no bastidor, inclusive, já falou abertamente que odeia o presidente. Agora, essa conta chegou. E chegou com juros.

Toda candidatura majoritária se sustenta em três pilares: prefeitos, chapa estruturada e popularidade. Ciro não fecha essa equação. Prefeitos, ele até tem — mas prefeitos, historicamente, não entram em confronto com o governo estadual para eleger senador e com frequência trocam de lado. Chapa, ele não tem. A projeção mais realista indica que, insistindo na candidatura, ele elegeria no máximo três deputados estaduais e um federal, número insuficiente para dar tração a uma campanha ao Senado. E popularidade, definitivamente, não é seu forte.

Os números são cruéis. Ciro Nogueira enfrenta rejeição em torno de 63% no Piauí. Bolsonaro, seu principal aliado nacional, supera os 70% de rejeição no estado. Do outro lado, Lula mantém cerca de 70% de aprovação. O campo político está claramente definido — e não é o dele. A esquerda tem liderança consolidada. A direita bolsonarista é minoritária. 

Diante desse cenário, a obsessão por uma foto com Lula ganha sentido. A imagem serviria para tentar construir uma narrativa artificial de diálogo, como se uma conversa pudesse apagar anos de ataques. E de narrativa, Ciro entende bem e, facilmente, conseguiria manipular.

Outro pilar frequentemente citado por Ciro são as emendas parlamentares. Ele, de fato, sabe operá-las. Mas emendas, no Piauí, viraram dinheiro de custeio para prefeituras, não projetos estruturantes de Estado. Não há uma marca na saúde, na educação, na segurança ou no desenvolvimento que possa ser associada ao seu mandato. Ninguém se elege senador apenas com o discurso de “pai dos prefeitos”.

Em 2024, Ciro conseguiu se esconder. Em 2026, não haverá esconderijo. Na campanha majoritária, sua rejeição será exposta como fratura aberta. No fim, o problema de Ciro Nogueira não é falta de estratégia. É falta de campo político, de narrativa crível e de conexão com o eleitor. E isso, definitivamente, não se resolve com um encontro forçado no Palácio do Planalto

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