RUPTURA ENTRE MDB E PSD FORTALECE DONOS DE PARTIDOS E MUDA LÓGICA DA BASE DE RAFAEL FONTELES.
A política da base governista no Piauí passa por uma mudança silenciosa, mas profunda. A ruptura da chamada fusão cruzada entre MDB e PSD não apenas redesenha a disputa eleitoral para deputado estadual em 2026, como também altera o centro de poder dentro da própria base.
Até então, a lógica era uma: o governador Rafael Fonteles negociava diretamente com os deputados.
Agora, com MDB, PSD, PT e Republicanos caminhando separadamente na formação das chapas, os verdadeiros protagonistas passam a ser os “donos” dos partidos.
Com chapas próprias, cada um passa a controlar sua estrutura eleitoral, suas vagas e suas negociações políticas.
Na prática, o poder deixa de estar pulverizado entre deputados e passa a se concentrar nas direções partidárias.
Esse novo cenário surgiu após o rompimento da fusão cruzada entre MDB e PSD — uma engenharia eleitoral criada em 2022 e que agora não resistiu até o próximo ciclo eleitoral.
Segundo fontes emedebistas, a articulação para encerrar o acordo teria partido justamente do senador Marcelo Castro.
Pelos cálculos do MDB, o partido sairia prejudicado caso mantivesse a fusão em 2026. Um dos pré-candidatos presentes à reunião relatou que, dentro da chapa unificada, o MDB elegeria apenas três deputados “puro-sangue”, enquanto o PSD ampliaria espaço.
Pelas regras eleitorais, cada partido pode lançar até 31 candidatos a deputado estadual, e a avaliação dentro do MDB era de que a fusão desequilibraria a relação entre as duas siglas.
Em 2022, quando a estratégia foi aplicada, nove deputados estaduais foram eleitos dentro dessa composição, distribuídos da seguinte forma:
Dos nove eleitos, 66,7% eram do MDB, 22,2% do PT e apenas 11,1% do PSD.
Mesmo com esse resultado aparentemente favorável, dentro do MDB cresceu o temor de perda de espaço político.
Segundo um deputado ouvido pela reportagem, sem a fusão o partido poderia chegar a nove ou até dez deputados estaduais, abrindo espaço para candidaturas com menor votação.
Mas, nos bastidores, uma fonte presente na reunião foi ainda mais direta.
O rompimento também seria uma forma de “dar o troco em Georgiano Neto”, além de permitir que alguns integrantes do MDB tenham liberdade para votar tanto em Marcelo Castro (MDB) quanto no senador Ciro Nogueira (PP) na disputa pelo Senado.
Apontado como principal beneficiado do novo cenário, Marcelo Castro aparece nos bastidores como o principal articulador do rompimento.
Publicamente, porém, o senador adotou outra versão. Em entrevista nesta quinta-feira (12), afirmou que “não foi informado” da decisão.
Quem conhece o funcionamento interno do MDB, entretanto, costuma relativizar esse discurso.
Dentro do partido, decisões desse porte raramente acontecem sem o aval do senador.
Outro detalhe chamou atenção nos bastidores: a decisão foi tomada enquanto Georgiano Neto viajava para Cancún, no México, e na ausência do governador Rafael Fonteles, que cumpria agenda em Brasília.
Mais do que uma ruptura eleitoral, o movimento altera a própria lógica de poder na base governista.
Com a fragmentação das chapas entre MDB, PSD, PT e Republicanos, o governador deixa de negociar diretamente com cada deputado e passa a lidar principalmente com os comandos partidários.
A mudança é significativa. Em vez de dialogar com dezenas de parlamentares e pré-candidatos, o Palácio de Karnak passa a negociar com quatro centros de poder político.
Isso fortalece os chamados “donos” dos partidos, que passam a concentrar as decisões sobre distribuição de espaços, alianças e articulação eleitoral.
Para suplentes e candidatos com votação menor, o cenário se torna mais difícil. Quanto mais chapas e candidatos, maior o número de suplentes — e menor a chance de assumir mandato na Assembleia.
A nova configuração também promete aumentar a disputa interna dentro do parlamento.
Temas como a Mesa Diretora e a Presidência da Assembleia Legislativa tendem a se tornar mais complexos em um ambiente com mais forças partidárias disputando espaço.
Para o governador Rafael Fonteles, o movimento traz duas consequências possíveis.
De um lado, reduz o número de interlocutores diretos. De outro, fortalece as cúpulas partidárias e pode obrigar um eventual novo governo a negociar mais com as estruturas partidárias do que com parlamentares individuais.
Na política, quando a matemática eleitoral muda, o poder também muda de endereço.
180GRAUS




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