PIAUÍ É O 2º LUGAR NO BRASIL; MEL DO PIAUÍ ATRAVESSA OCEANOS, ANTES ATRAVESSA SECA.

Hoje, o estado ocupa o segundo lugar no ranking nacional de produção, perdendo apenas para regiões tradicionalmente mais estruturadas do Sul do país.

O mel do Piauí atravessa oceanos. Antes disso, atravessa a seca
Mel no Piauí

No coração do semiárido nordestino, onde o sol desenha fissuras no chão e o vento dobra árvores acostumadas ao pouco, a Caatinga guarda um segredo que poucos imaginam. Basta a primeira chuva para que as plantas nativas floresçam de forma quase urgente, como se soubessem que o tempo é curto. É desse breve ciclo de explosão de vida que nasce o mel do Piauí, um dos mais valorizados do Brasil e do mundo.

Enquanto muitos veem apenas aridez, milhares de famílias enxergam oportunidade. E, com o zumbido firme de cada colmeia, constroem uma das cadeias produtivas mais fortes do semiárido.

Entre 2012 e 2022, a produção de mel no Piauí saltou de 1.563 para 8.321 toneladas, um crescimento de 432%. Em 2023, a colheita chegou a quase 9 mil toneladas. Hoje, o estado já ocupa o segundo lugar no ranking nacional de produção, perdendo apenas para regiões tradicionalmente mais estruturadas do Sul do país.

O néctar nasce da Caatinga em flor, um bioma único, com plantas que oferecem características sensoriais próprias. Cada florada molda o mel: mais claro ou mais âmbar, mais leve ou mais encorpado. O sabor é, no fim, a memória líquida da terra.

Ao todo mais de 10 mil famílias vivem direta ou indiretamente da apicultura no estado. Em muitas comunidades rurais, as colmeias são mais do que fonte de renda: são um pacto com a terra.

O trabalho é comunitário. As cooperativas, mais de dez espalhadas pelo estado, organizam produção, certificação, beneficiamento e exportação. Entre elas, destaca-se a Casa Apis, uma central presente em municípios do semiárido piauiense, responsável por reunir centenas de produtores e impulsionar a qualidade do mel que chega aos mercados internacionais.

Cerca de 93% do mel piauiense é exportado. Alemanha, Itália, Estados Unidos e Canadá são os principais consumidores. As vendas internacionais movimentam mais de R$ 100 milhões por ano, tornando o mel um dos produtos mais importantes da economia rural do estado.

Mas, como toda cadeia globalizada, há fragilidades: quando os Estados Unidos elevaram tarifas sobre o mel orgânico brasileiro, parte das exportações ficam suspensas, afetando diretamente produtores pequenos. Para quem vive de safras curtas e chuvas incertas, oscilações econômicas lá fora se tornam tempestades aqui dentro.

Ao contrário de outras atividades rurais, a apicultura depende da preservação, não da destruição. Sem Caatinga, não existe mel. Sem mel, não existe renda. Por isso, muitas cooperativas trabalham com certificações orgânicas, práticas sustentáveis e incentivos à recuperação da vegetação nativa.

A Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba) e outras instituições têm apoiado o setor com kits de colheita, capacitações e infraestrutura. E, assim, uma atividade que começou como complemento de renda hoje se transforma em projeto de vida para milhares.

Fora do Piauí, talvez tudo isso pareça distante. Mas no sertão, cada litro de mel carrega histórias de luta, de cooperação e de esperança. Em um território onde a seca sempre foi lida como sentença, as abelhas mostram um outro caminho possível: o da abundância que nasce do cuidado e da persistência.

PENSAR PIAUÍ

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