ELA COMEÇOU COMO MERENDEIRA, TRABALHOU NA LIMPEZA, TORNOU-SE PROFESSORA E HOJE É DIRETORA.

Merendeira que começou servindo a comida e depois pediu transferência para a equipe de limpeza fez a complementação pedagógica, virou professora da rede e hoje ocupa a cadeira de diretora do CAIC Santa Paulina, no Paranoá.

Ela entrou na Secretaria de Educação do DF como merendeira em 1990, passou pela faxina, virou professora e hoje é diretora do CAIC Santa Paulina, no Paranoá.

Ela tem 1,47 metro e precisava manejar panelas maiores que o próprio corpo para cozinhar para 300 alunos por turno. Depois, na faxina, ouviu humilhações da diretora da escola enquanto estava grávida de oito meses. Hoje é ela quem ocupa a cadeira.

Oneide de Souza Ribeiro dos Santos começou a trabalhar na Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal em 1990, aos 21 anos, e o primeiro cargo dela foi de merendeira. Depois passou a integrar a equipe de faxina e, mais tarde, fez a complementação pedagógica para o magistério e se tornou professora da rede. A trajetória foi divulgada pela Agência Brasília em 17 de abril de 2021 e pelo site da própria Secretaria de Educação, e republicada pelo Metrópoles em 19 de abril de 2021, em texto assinado por Luísa Guimarães.

Na data daquelas publicações, ela ocupava o cargo de diretora do Centro de Assistência Integral à Criança de Santa Paulina, o CAIC Santa Paulina, no Paranoá. O sonho de ser professora a levou até a Secretaria de Educação antes mesmo de ela ser pedagoga, e o percurso entre os dois pontos levou décadas.
As panelas maiores que ela

O primeiro obstáculo do primeiro emprego não foi burocrático nem de qualificação. Foi físico.

Oneide tem 1,47 metro de altura, e ela própria aponta isso como o desafio inicial do trabalho como merendeira. Não sabia cozinhar para muita gente e, de repente, precisava manipular panelas maiores do que o próprio corpo para preparar refeição para 300 estudantes em cada turno.

O relato dela sobre o resultado é direto. Segundo declarou à Agência Brasília, não deu muito certo, porque ela mal conseguia pegar as panelas.

O detalhe diz algo sobre a estrutura do serviço, e não sobre ela. Cozinha industrial de escola pública trabalha com equipamento dimensionado para volume, não para quem vai operá-lo, e uma pessoa de 1,47 metro simplesmente não alcança o que precisa alcançar.
A transferência para a faxina e a humilhaçãoEla entrou na Secretaria de Educação do DF como merendeira em 1990, passou pela faxina, virou professora e hoje é diretora do CAIC Santa Paulina, no Paranoá

Diante da dificuldade, ela pediu transferência para trabalhar na limpeza da escola. Os obstáculos mudaram de natureza.

Segundo o relato publicado pela Agência Brasília, os preconceitos foram outros. Oneide sempre gostou de estudar, de se vestir de um jeito formal e de lutar pelos direitos, e as humilhações que sofreu a deixavam indignada e a levaram às lágrimas.

Há um detalhe que torna esse período especialmente duro. Grávida de oito meses, ela não gostava do tratamento que recebia da então diretora da escola.

Vale registrar a ironia que o próprio relato produz. A pessoa que sofreu humilhação de uma diretora de escola enquanto trabalhava na limpeza é hoje quem ocupa a cadeira de diretora de uma escola.
Em 1995, ela alfabetizou os próprios colegas

Este é o episódio mais revelador da trajetória e o que menos aparece nas versões resumidas.

Em 1995, ainda trabalhando na limpeza, Oneide fez um curso para alfabetizar os colegas de trabalho que não sabiam ler. Ela conta que isso a deixava muito orgulhosa.

A descrição da rotina daquele período mostra a distância que ela atravessava todos os dias dentro do mesmo prédio. Segundo o relato dela à Agência Brasília, limpava as salas, trocava de roupa e ia fazer algo que a deixava muito feliz, e nas mesmas salas ensinava e aprendia com os colegas.

É a única passagem em que ela é literalmente professora e faxineira no mesmo turno, nas mesmas paredes. Foi ali, segundo o texto, que a paixão por educar só aumentou.

A origem explica por que a escola era, para ela, o oposto de obrigação.

Oneide nasceu em Formoso, em Goiás, em uma família muito pobre, e foi criada pela avó. Segundo o relato dela, viviam em uma casinha de paredes de adobe e coberta por palha, sem energia elétrica e sem água encanada.

Nesse contexto, a escola era a única diversão que ela tinha, e ela adorava ir. O maior sonho era um dia ser professora, e ela cita nominalmente a inspiração: era apaixonada pela professora Cristina.

A situação dos pais completa o quadro. Eles viviam numa fazenda, tinham seis filhos e nenhum estudo, e com muito trabalho só conseguiam manter a casa. O pai nunca tirava férias e chegou a ter três empregos. A mãe trabalhava o tempo todo e nunca podia ir às reuniões de pais, porque Oneide morava na cidade, com a avó.

Ainda assim, segundo ela, os pais sempre incentivaram os filhos a estudar. Ela conta que fazia todos os cursos gratuitos que apareciam, e é essa frase que amarra a infância ao curso de alfabetização de 1995 e à complementação pedagógica que veio depois.
A complementação pedagógica e a chegada à direção

O passo formal veio quando ela já era casada. Foi então que fez a complementação pedagógica para o magistério e concretizou a c
Existe um dado que as reportagens de 2021 não trazem e que ajuda a entender o percurso. O blog mantido pelo próprio CAIC Santa Paulina lista, na equipe gestora da gestão 2014/2016, o nome de Oneide Souza como supervisora pedagógica da unidade.

Isso significa que ela já atuava naquela escola em função de gestão pedagógica anos antes de assumir a direção, tendo passado pela sala de aula antes disso. A chegada ao cargo máximo, portanto, foi o último degrau de uma escada percorrida dentro da própria rede.

Vale registrar como esse cargo é preenchido no Distrito Federal. Diretor de escola pública da rede distrital é escolhido por eleição na comunidade escolar, e não por indicação. Ela concorreu e ganhou.
O filho que sabia antes dela

A cena de bastidor mais citada da história envolve o filho mais velho, e ela tem duas partes.

Antes da disputa, quando ela concorreu ao cargo, Gabriel Lucas, então com 30 anos, disse à mãe que ela ganhasse aquela eleição, porque tinha nascido para aquilo.

Depois do resultado, ele voltou ao assunto. Comemorou dizendo que a trajetória dela era linda, de faxineira a diretora da escola, e que ela o orgulhava.

Há um desdobramento que fecha o círculo da história familiar. Segundo Oneide, coincidência ou não, os dois filhos dela são professores em suas áreas de trabalho e excelentes profissionais.

Ela é mãe e avó, e afirma escutar constantemente que é inspiradora. A conta de tempo também impressiona: entre o primeiro dia como merendeira, em 1990, e as publicações de 2021, passaram-se 31 anos de carreira na mesma secretaria.
O que fica dessa história

Uma casa de adobe sem luz nem água encanada em Formoso, panelas maiores que uma mulher de 1,47 metro, uma transferência para a faxina, humilhação ouvida grávida de oito meses, um curso em 1995 para ensinar colegas a ler nas mesmas salas que ela limpava e, três décadas depois, a cadeira de diretora. A trajetória de Oneide mostra o tamanho da distância que existe dentro de um mesmo prédio público.

E você, o que essa história te faz pensar? A rede pública oferece caminho real de ascensão para quem entra pela base, ou casos como esse são exceção que confirma a regra? Você acha que a eleição para diretor de escola ajuda a abrir espaço para quem vem de dentro, ou o resultado depende mais de articulação do que de trajetória? E mais: você já viu alguém ser tratado de forma diferente no trabalho por causa da função que ocupa? Comente aí, principalmente se você trabalha em escola pública e conhece de perto essa hierarquia.

CPG

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