HIPERCONECTIVIDADE; QUANDO O EXCESSO COMEÇA A AFETAR A SAÚDE MENTAL.

O brasileiro passa, em média, 51 horas e 35 minutos por semana consumindo conteúdos digitais, entre redes sociais, vídeos, notícias, podcasts e plataformas de streaming. O dado é do relatório Digital 2026, do DataReportal, uma das principais referências globais em comportamento digital, e ajuda a dimensionar um hábito cada vez mais presente na rotina da população.
Especialistas alertam, no entanto, que o principal problema não é o tempo de tela em si, mas a forma como a tecnologia é utilizada e os impactos que esse comportamento pode ter sobre a saúde mental.
"Hoje sabemos que o uso problemático da tecnologia está muito mais relacionado à compulsividade, à dependência emocional e à comparação social do que ao número de horas diante das telas. Quando a pessoa recorre ao celular para aliviar ansiedade, tédio ou solidão e continua conectada mesmo percebendo prejuízos no sono, no trabalho ou nos relacionamentos, já existe um impacto importante na qualidade de vida", explica a psiquiatra Camila Magalhães Silveira.
Para a especialista, o celular deixa de ser uma escolha consciente e passa a fazer parte de um comportamento automático. Embora o chamado "vício em celular" ainda não seja um diagnóstico formal, Camila explica que o cérebro responde a esse padrão de forma semelhante ao observado em outras dependências comportamentais.
"As notificações, curtidas e novos conteúdos ativam repetidamente o sistema cerebral ligado à recompensa, favorecendo a liberação de dopamina e tornando o comportamento cada vez mais automático. Assim, muitas pessoas passam a recorrer ao celular para aliviar ansiedade, estresse ou tristeza, reforçando um ciclo de dependência emocional."
As redes sociais também entram nessa conta. A exposição diária a versões editadas da vida de outras pessoas pode estimular comparações constantes e afetar a autoestima. É o que demonstra a revista Computers in Human Behavior Reports, que analisou 37 estudos e encontrou associação entre o uso intenso das redes sociais e maiores índices de ansiedade, depressão e solidão em adultos. Já o estudo da Joint Research Centre (JCR) corrobora os impactos das redes sociais sobre os adolescentes, como piora do bem-estar psicológico pela comparação social, medo de ficar de fora (FoMO) e aumento da insatisfação com a própria imagem corporal.
"Embora muitas pessoas acreditem que estão descansando ao passar horas nas redes sociais, o cérebro continua recebendo estímulos o tempo todo. Quando, ao final desse período, surgem sinais como cansaço mental, irritação ou dificuldade para organizar os pensamentos, é um indicativo de que esse momento deixou de ser uma pausa e passou a contribuir para a sobrecarga", explica a médica.
Quando a tela rouba o sono
O uso do celular antes de dormir também merece atenção, já que o uso de tela neste momento reduz a qualidade do sono e compromete a regulação emocional no dia seguinte, aumentando a irritabilidade, a dificuldade de concentração e a vulnerabilidade à ansiedade.
Apesar dos riscos, a psiquiatra não recomenda abandonar a tecnologia, mas aprender a usá-la de forma consciente.
"Pequenas mudanças de hábito já fazem diferença. Desativar notificações desnecessárias, evitar o celular na última hora antes de dormir, revisar os conteúdos consumidos nas redes sociais e reservar tempo para atividades presenciais ajudam a construir uma boa higiene digital. A tecnologia deve facilitar a vida, e não ocupar o espaço do descanso, da convivência e do autocuidado”, conclui.
Cinco sinais de que a hiperconectividade pode estar afetando sua saúde mental


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