PIO-IX - PI | PROFESSOR ACORDA AS 4 DA MANHÃ PARA ALIMENTAR ANIMAIS DE RUA.

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O professor de Pio IX que transformou a alvorada em porto seguro para animais de rua.

Há quase uma década, o empresário e educador físico José Valvenarque acorda antes do sol para garantir que cães e gatos abandonados no sertão piauiense não morram de fome 

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Pio IX, Piauí - ás 4 horas da manhã, quando a maioria dos 18 mil habitantes de Pio IX ainda dorme, a cozinha de José Valvenarque Bezerra,  já está em plena atividade. O som não é o de preparo do café, mas o do abrir de sacos de ração e o tilintar de vasilhas de metal. Aos 65 anos, este empresário e profissional de Educação Física não conhece fins de semana ou feriados. Sua rotina, que se repete há dez anos, é uma missão de misericórdia.

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Sua "paróquia" é vasta: as ruas do centro da cidade, as margens das estradas e as áreas rurais periféricas do município, localizado a 440 km de Teresina. Seu "rebanho" é composto por cerca de 200 almas: entre 170 e 180 gatos e de 30 a 50 cães. Todos eles têm algo em comum: foram descartados, abandonados à própria sorte.

O trabalho de Valvenarque e seus dois colaboradores é mais do que apenas fornecer comida. É uma operação tática e sanitária. Ele acorda cedo para preparar o "itinerário da esperança". Sacolas de ração são separadas por rota; garrafas d’água são enchidas. E, crucialmente, uma maleta de primeiros socorros com vermífugos e antiparasitários é checada.

O ritual da confiança

Quando Valvenarque chega aos pontos de alimentação, uma cena familiar se repete. "Eles já sabem o horário, se aproximam, vão comer", conta. Mas o momento do alimento é também o momento da inspeção. Com olhos treinados pela experiência, ele monitora cada animal. "Fico olhando um por um para ver se tem alguma doença, bicheira ou outro problema." Quando o caso foge ao seu conhecimento, ele aciona uma rede de veterinários que o orientam e, muitas vezes, auxiliam nos tratamentos mais complexos.

A dinâmica muda de acordo com a espécie. Os cães do centro já se tornaram parte do cenário urbano e o reconhecem. A aproximação é rápida, uma troca de olhares, rabo abanando e a barriga cheia. Com os gatos, a história é outra, especialmente os recém-abandonados nas estradas.

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"Os gatos costumam ser mais difíceis", explica. "Chegam assustados e, para conquistar a confiança deles, é um processo lento." O ritual exige paciência. Valvenarque conta que muitos felinos, ao serem deixados em um território desconhecido, sobem em árvores e se escondem dos animais que já vivem ali. Para que não fiquem sem comer, ele desenvolveu uma técnica: deixa pequenas porções de alimento em pontos altos, como galhos ou muretas, até que os novos moradores se sintam seguros para descer e interagir com os outros.

O peso da responsabilidade e a 'energia recíproca'

Para Valvenarque, essa não é uma atividade de lazer; é um compromisso vitalício. Ele compara os cuidados aos de um pai com um filho. A necessidade de viajar ou uma doença não são desculpas para a falha. "Se adoecer ou precisar viajar, já tem que deixar alguém responsável", afirma com a gravidade de quem sabe que vidas dependem dele. "Eles esperam pela gente e a gente não pode falhar."

Ao longo desta década, o convívio diário transformou a percepção de Valvenarque sobre o sofrimento animal. O que começou como um auxílio tornou-se uma conexão profunda, quase espiritual. Ele relata uma "energia recíproca" que torna impossível abandonar o trabalho.

"Você começa a descobrir as dores deles. Só compreende esse sentimento quem convive com animais", confessa o homem que prefere a solidão da alvorada à indiferença de quem abandona. Para os cerca de 200 animais de Pio IX, Valvenarque não é apenas um cuidador; ele é a garantia de que, pelo menos por hoje, eles não foram esquecidos.

Fonte: G1 PI

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