PROFESSOR DO IFPI RELATA ATAQUES HOMOFÁBICOS E RACISTAS; PRINTS EXPÕEM OFENSAS.
Por Rayane Venancio
Jailson Oliveira, professor do curso de Moda do Instituto Federal do Piauí (IFPI), campus Teresina Zona Sul, denunciou ter sofrido ataques homofóbicos e racistas feitos por um grupo de estudantes da instituição.
O IFPI informou que iria enviar uma nota sobre o caso. O espaço segue aberto para esclarecimentos. O Sindicato dos Docentes do IFPI (SINDIFPI) emitiu uma nota de solidariedade ao professor e informou que está acompanhando, por meio da Coordenação Estadual e da Assessoria Jurídica, os devidos procedimentos administrativos e disciplinares, para que, garantido o direito de ampla defesa, as responsabilidades sejam devidamente atribuídas. Confira a nota completa no fim desta matéria.
O docente relatou que descobriu as ofensas após ser alertado por alunas da própria turma sobre a existência de um grupo de mensagens em que estudantes faziam comentários depreciativos a seu respeito. Inicialmente, ele acreditou que as críticas estivessem relacionadas à sua atuação profissional, mas, ao ter acesso às mensagens, percebeu que os ataques tinham motivação homofóbica e racista.
“Foi um episódio muito chato, muito dolorido, muito triste e que me deixa muito abalado emocionalmente. Ser professor sempre foi o meu sonho desde criança. Nas últimas semanas me deparei com isso e tenho ficado emocionalmente muito abalado”, afirmou.
De acordo com Jailson, uma aluna decidiu mostrar as mensagens após uma conversa em sala de aula sobre ética e respeito. O professor disse que, ao visualizar os conteúdos, ficou espantado com o conteúdo das publicações e passou a receber novos registros de conversas nos dias seguintes.
Entre as mensagens que mais o impactaram, segundo o relato, estão ameaças de morte e comentários discriminatórios. O professor, que é paciente renal e realiza sessões de hemodiálise três vezes por semana, destacou que uma das estudantes teria feito referência à condição de saúde.
“Uma das falas que me pegou de imediato no emocional foi quando uma das alunas disse que se responsabilizava por sumir com os meus órgãos. Eu faço tratamento de hemodiálise e estou lutando para entrar na fila de transplante de rins. Isso me atingiu em um lugar muito sensível”, relatou.
Foto: Arquivo Pessoal

Ataques racistas e homofóbicos
O docente também afirmou que uma estudante escreveu que os colegas o odiavam “porque ele é gay e não porque é professor”. Para Jailson, a declaração deixou evidente que os ataques não estavam relacionados à sua metodologia de ensino ou às cobranças feitas em sala de aula.
“A partir dessa fala, eu entendi que não era sobre a minha didática, nem sobre a minha cobrança. Era sobre quem eu sou. Eu sempre cobrei compromisso, responsabilidade e postura ética dos alunos”, disse.
Ainda segundo o professor, as mensagens continham expressões ofensivas, comentários de cunho racista e até pedidos para que ele fosse morto. Diante da situação, ele comunicou a coordenação do curso e registrou uma ocorrência interna junto à instituição.
Jailson informou que a direção do campus adotou medidas administrativas logo após tomar conhecimento do caso. Entre as providências iniciais, as estudantes envolvidas foram suspensas por cinco dias e instaurado um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) para apuração dos fatos. “Tenho recebido todo o apoio do Instituto Federal. A direção está tomando as medidas cabíveis e conduzindo os procedimentos administrativos necessários para investigar o caso”, afirmou.
O professor também registrou boletim de ocorrência na Delegacia de Direitos Humanos. Segundo ele, a decisão foi tomada diante da gravidade das mensagens e da ausência de pedidos de desculpas por parte dos envolvidos.
Jailson afirmou ainda ter ficado indignado com a postura de alguns responsáveis pelos estudantes durante as reuniões realizadas pela instituição. Conforme o relato, familiares teriam minimizado a gravidade do caso e tentado justificar as mensagens publicadas no grupo.
“Não houve nenhum pedido de desculpas, nem dos pais, nem dos alunos. O que mais me chocou foi perceber que alguns responsáveis pareciam não compreender a dimensão da gravidade dos fatos”, declarou.
O professor ressaltou que pretende acompanhar o andamento das investigações e defendeu a responsabilização dos envolvidos, observadas as garantias legais previstas para adolescentes.
“Não acho justo que outras pessoas passem por isso e que esses alunos fiquem impunes. Homofobia, racismo e ameaça de morte são crimes. Estou tomando todas as medidas cabíveis para que o caso seja devidamente apurado”, disse.
Foto: Arquivo Pessoal

Reincidência após as denúncias
O professor afirmou ainda que, mesmo após a adoção das primeiras medidas disciplinares pela instituição, houve novos episódios relacionados ao caso. Segundo Jailson, uma das estudantes envolvidas nos ataques passou a ameaçar a aluna que havia compartilhado as capturas de tela das mensagens com ele.
"Depois que fiz o registro da ocorrência interna, houve reincidência. Uma das alunas começou a ameaçar a estudante que me enviou os prints das mensagens. Diante disso, registrei uma nova ocorrência na instituição", relatou.
Segundo o docente, as estudantes também teriam reagido com deboche à suspensão aplicada pelo IFPI. "Elas zombaram da punição e saíram dizendo que ganharam cinco dias de férias. Uma das alunas comentou pelos corredores que não aconteceria nada porque elas eram 'brancas privilegiadas'", concluiu.
O caso segue sendo acompanhado pelas autoridades responsáveis.
Confira a seguir a nota do SINDIFPI:
A SINDIFPI manifesta sua solidariedade ao professor Jailson Oliveira Sousa, docente do campus Teresina - Zona Sul, em virtude de ataques racistas e homofóbicos praticados por um grupo de estudantes de uma de suas turmas. O exercício da docência no IFPI precisa ser respeitado e garantido por todas as instâncias, e o papel formador da instituição deve se refletir também na resposta a agressões desse tipo, para que toda a comunidade de estudantes, servidores(as) e responsáveis tenha clareza dos compromissos do IFPI com a formação integral de seus alunos.
A SINDIFPI estará acompanhando, através da Coordenação Estadual e da Assessoria Jurídica, os devidos procedimentos administrativos e disciplinares, para que, garantido o direito de ampla defesa, as responsabilidades sejam devidamente atribuídas. Nossa prioridade é a garantia da integridade física e mental do docente e demais denunciantes, para que atitudes estarrecedoras como as praticadas pelas(os) estudantes não mais encontrem lugar na instituição. O papel das famílias também precisa ser objeto de ações mais diretas e permanentes da administração do IFPI, para que a formação de nossos jovens rejeite e combata o preconceito e a violência, e não os reproduzam em atos e palavras inaceitáveis para a convivência em sociedade.









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